"Se o osso peniano em certos animais ainda é uma novidade para muitos, o osso clitoriano é ainda mais surpreendente", de Cláudia Guimarães Costa
Membro-fundador da Academia de Ciências e Letras de Sabará
Cadeira 13. Patrono: Hélio Costa
SE O OSSO PENIANO EM CERTOS ANIMAIS AINDA É UMA NOVIDADE PARA MUITOS, O OSSO CLITORIANO É AINDA MAIS SURPREENDENTE
Artigo de nossa membro-fundadora Cláudia Guimarães Costa para a revista internacional The Conversation, edição de 14 de agosto de 2026
Quando pensamos em ossos, principalmente no que se refere aos mamíferos, certamente fazemos associação com o crânio, fêmur e vértebras, ou seja, conhecemos quais são os ossos que compõem nosso esqueleto e sabemos a sua função – sustentação, equilíbrio, mobilidade e proteção.
No entanto, ao nos referirmos à existência de um osso no pênis, a maior parte das pessoas se surpreende. Contudo, é ainda mais surpreendente quando mencionamos a existência de um osso no clitóris das fêmeas.
Sim, alguns grupos de mamíferos — como roedores, morcegos e primatas — possuem estruturas ósseas associadas à genitália. O báculo é o osso que ocorre no pênis, enquanto o baubelo é o osso presente no clitóris das fêmeas. Essas estruturas têm seus nomes com origem no latim: Baculum (em português, bastão ou cajado) e Baubellum (em português, joia).
Machismo científico
Diferente do que acontece com os machos, para os quais existem diversas publicações científicas que apresentam a morfologia da genitália, descrevem o báculo e suas funções, o estudo da genitália feminina e a estrutura presente nas fêmeas é negligenciado.
E não se trata apenas dos animais: é assim com os humanos também.
O clitóris é amplamente reconhecido como o principal ponto do prazer sexual feminino. Apesar de seu papel central, historicamente o órgão recebeu descrições imprecisas, sendo frequentemente tratado de forma simplificada como uma versão miniaturizada do pênis. Chegou a ser omitido em manuais médicos entre as décadas de 1950 e 1970.
Mas a identificação do órgão remonta à Antiguidade clássica. Autores como Rufo de Éfeso — responsável por introduzir o termo kleitoris — e Sorano de Éfeso já documentavam a anatomia feminina por volta do século II depois de Cristo. Em contrapartida, figuras de grande influência como Galeno, o mais famoso médico da Antiguidade depois de Hipócrates, negligenciaram o tema. E o próprio pai da Medicina interpretou o clitóris, erroneamente, como um mecanismo de proteção.
Na Idade Média, a estrutura anatômica sofreu forte repressão moral e religiosa, recebendo denominações pejorativas no manual inquisitorial, como o “mamilo do diabo” Malleus Maleficarum.
No século XVI, o anatomista Matteo Realdo Colombo divulgou em sua publicação De re anatomica a definição do clitóris como o foco central do prazer feminino. Mas foi apenas entre os séculos XVII e XIX que o rigor científico em torno do órgão ganhou força.
Regnier De Graaf desempenhou um papel central ao detalhar o clitóris, surpreso por nenhum anatomista tê-lo descrito até o momento, pois “se trata de uma estrutura perceptível a visão e ao tato”.
George Ludwig Kobelt realizou o mapeamento detalhado da rede nervosa, vascular e interna. Mas esse período foi marcado também por práticas médicas retrógradas, como a realização de clitoridectomias (remoção cirúrgica do clitóris) para conter supostos transtornos mentais e neurológicos.
No século XX, o assunto retornou aos debates médicos por intermédio das teorias de Sigmund Freud sobre o desenvolvimento psicossexual. Apesar disso, o tema permaneceu sob forte tabu social: a edição número 25 do renomado manual “Gray’s Anatomy”, lançada em 1948, omitiu completamente ilustrações anatômicas do órgão.
Historicamente, a anatomia feminina foi quase exclusivamente documentada por homens, tratada como um tabu por séculos e com forte influência de paradigmas culturais, religiosos e científicos.
Este cenário só mudou drasticamente em 2005, quando Helen O'Connell e sua equipe apresentaram o mapeamento mais abrangente da estrutura até então, recorrendo a exames de ressonância magnética, análises histológicas e modelagem em 3D.
Esta pesquisa revolucionou o entendimento científico ao descrever o clitóris como um sistema complexo e unificado — que inclui a glande, as hastes, o corpo, os bulbos e seções adjacentes à uretra e à vagina —, consolidando-o como o eixo principal da resposta orgástica feminina.
Conhecendo o baubelo de carnívoros
Assim como a genitália das mulheres vem sendo mais estudada, também os corpos das fêmeas de muitas espécies estão recebendo mais atenção de pesquisadores — e sobretudo pesquisadoras.
Um grupo de pesquisa italiano, especialmente duas cientistas, tem se dedicado a descrever a morfologia do baubelo de algumas espécies de primatas. Os resultados obtidos revelam que muitos primatas não humanos possuem báculo e a maior parte das fêmeas destas espécies possuem baubelo.
As pesquisas do grupo reforçam grandes questões relacionadas à evolução: por que os primatas não humanos, tão próximos de nós, possuem báculo e baubelo? Por que os primatas humanos os perderam? O que pode ter levado a essa perda?
Alguns pesquisadores sugerem que diferentes pressões seletivas possam ter influenciado na manutenção, assim como na perda e mudança desses ossos, dentre elas, o tipo de sistema de acasalamento.
Os primatas não humanos, em sua maioria poligâmicos, possuem estas estruturas. É possível que a sua presença favoreça, de alguma forma, o sucesso reprodutivo das espécies poligâmicas que as possuem. Isso levanta a hipótese de que, provavelmente, por termos um comportamento tendenciosamente monogâmico, estas estruturas teriam se perdido. Será?
Fascinada por estas questões, tenho me dedicado e este estudo, contando com parcerias de pesquisadores da PUC Minas e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A princípio, a questão básica da minha pesquisa se concentra na identificação da presença ou ausência do báculo e baubelo em algumas espécies de carnívoros para, posteriormente, inferir nas possíveis causas da sua existência ou não.
São investigadas espécies de cachorro-do-mato, Cerdocyon thous, raposinha, Lycalopex vetulus, cachorro-do-mato-vinagre, Speothos venaticus e lobo-guará, Chrysocyon brachyurus. A presença do báculo já foi descrita para os canídeos neotropicais, mas nenhum estudo descreve e confirma a presença do baubelo nas espécies desse grupo.
Também investigo a presença destas estruturas em onça-pintada, Panthera onca, onça-parda, Puma concolor, jaguatirica, Leopardus pardalis, gato-mourisco, Herpailurus yagouaroundi, e gato-do-mato-pequeno, Leopardus guttulus.
Uma questão especialmente desafiadora é a confirmação da presença/ausência do osso clitoriano em felideos. O báculo já foi citado em publicações para algumas espécies do grupo, onde foi mencionado que trata-se de uma estrutura cartilaginosa, não completamente ossificada.
Vale destacar que, todas as amostras coletadas, são provenientes de carcaças de animais atropelados em estradas ou de indivíduos que vieram à óbito em criatórios ou zoológicos, devidamente autorizadas pelos órgão competentes.
E afinal, qual a função destes ossos?
Em geral, o baubelo é menor e morfologicamente menos definido quando comparado ao báculo. Na morsa (Odobenus rosmarus), por exemplo, os machos adultos têm o maior báculo conhecido dentre os mamíferos (cerca de 65 centímetros), enquanto as fêmeas têm um baubelo bem menor e de formato diferente do báculo. Por outro lado, fêmeas do esquilo-cinzento-oriental (Sciurus carolinensis), espécie comum nos Estados Unidos, possuem o baubelo semelhante, em forma e tamanho, ao báculo.
A ocorrência do osso clitoriano e do báculo pode estar associada a hormônios masculinos (no caso, a testosterona). Um estudo experimental observou o desenvolvimento do baubelo em cães, furões e ratos nos quais se administrou testosterona, mesmo que poucas espécies destes grupos possuam a estrutura naturalmente.
Por outro lado, a realização de castração em machos alterou o desenvolvimento completo do báculo, impedindo que o osso atingisse seu tamanho e forma do estágio adulto em várias espécies.
Muitas funções são propostas para o báculo, como suportar o pênis, facilitar a introdução de tampões copulatórios em posição ideal, garantir o depósito de esperma mais perto do local da fertilização, proteger a uretra da compressão durante cópulas prolongadas, ou ainda estimular a fêmea durante a cópula.
Ainda que o baubelo e o báculo geralmente estejam presentes tanto em machos quanto em fêmeas da mesma espécie, a presença do osso clitoriano é muito mais instável: ele tende a estar ausente com maior frequência e a apresentar padrões menos consistentes que o báculo. Isso indica que pode não ter uma função clara e acabar sendo perdido em algumas espécies. Ou seja, a possível função do baubelo não é conhecida e pode se tratar de uma estrutura não funcional.
Estudos que documentam a presença e descrevem a morfologia do baubelo em espécies neotropicais, sobre as quais a ciência não possui informações, são importantes para compreender quais os fatores favorecem a ocorrência desta enigmática estrutura das fêmeas de algumas espécies de mamíferos.
Para reler o artigo de Cláudia no site da revista The Conversation, clique aqui.
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Querido leitor, assine seu comentário!


Grande contribuição para o nosso conhecimento. Surpreendente para mim.
ResponderExcluirParabéns, menina linda e obrigada.
Selma
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirRescrevo.
ExcluirVivendo e aprendendo. Aprendo porque vivo.
No meu livro "Com o Olhar no Infindo - As Distâncias do Imaginário", tenho a intenção de abrir os nossos sentidos a não se "prender somente no hoje e agora.
Fomos criados para darmos oportunidade ao conhecimento do infindo.
Aquí então volto-me para o artigo e vejo as atrocidades percorridas pelos conceitos de castração das mulheres que alguns povos praticam à mutilação do clitóris com gilete ou mesmo os homens transformados em eunucos. Agradecido estou pela oportunidade de saber que o conhecimento é infindo.
Vai muito além.
*Evandro de Paula*