"A vida vai ficando tão séria", de Ana Paula Cruz
Membro-fundador da Academia de Ciências e Letras de Sabará
Cadeira 20. Patrono: Lúcia Machado de Almeida
E, de repente...
A vida vai ficando tão séria que a gente acaba esquecendo daquilo que ama. Vai deixando para depois os pequenos hábitos que faziam bem. As coisas simples.
As coisas que pareciam sem importância, mas que davam sentido aos dias.
A
vida vai ficando tão séria que, quando a chuva chega, já não paramos para
apreciar o cheiro da terra molhada.
Aquele aroma antigo que invade o ar nos primeiros instantes em que a água encontra a terra seca. Um cheiro de
despertar lembranças da infância e de nos levar, por alguns segundos, para um
tempo em que a vida parecia mais leve.
A
vida vai ficando tão séria que já não conseguimos parar diante da televisão
para assistir a uma comédia romântica e
nos emocionar sem constrangimento. Como se chorar diante de uma história bonita
fosse perda de tempo. Coisa de “gente emocionada”!
A
vida vai ficando tão séria que certas notícias, certas falas e certas
injustiças deixam de provocar o espanto que provocavam antes. O que um dia nos
indignava passa a fazer parte do nosso cotidiano. E isso talvez seja uma das
coisas mais perigosas que possam acontecer.
A
vida vai ficando tão séria que esquecemos de ouvir os bem-te-vis que ainda
insistem em cantar próximos as nossas janelas, anunciando que o belo da vida
ainda existe e que eles continuam lá. O problema é que já não estamos
“presentes” para escutá-los.
Mais
séria ainda fica quando alguém tenta conversar conosco e somos interrompidos,
insistentemente, pelas notificações do celular. Mensagens chegam sem parar.
Sons apitam o tempo inteiro. E, pouco a pouco, vamos nos afastando das pessoas
que estão bem à nossa frente.
A
vida vai seguindo tão séria que nos esquecemos dos refúgios que costumávamos
procurar nos dias difíceis. Houve um tempo em que bastava entrar no quarto,
colocar uma música favorita e deixar que ela cuidasse do que estava machucado
por dentro.
Hoje, muitas vezes, a música foi substituída pelos antidepressivos. E talvez a grande tristeza não seja apenas o fato de a vida ter ficado séria.
Talvez esteja no fato de que nem percebemos quando isto aconteceu.
Continuamos
caminhando, cumprindo compromissos, resolvendo problemas e atravessando os dias.
Mas, em algum momento do caminho, deixamos para trás o cheiro da chuva, o canto dos bem-te-vis, as músicas que nos abraçavam e as pequenas pausas que nos lembram de quem éramos.
E é justamente dessas pequenas coisas que a alma sente falta. Porque viver nunca foi apenas sobreviver aos dias.
Viver
também é para sentir a chuva, ouvir uma canção, apreciar o silêncio, prestar
atenção numa conversa e permitir que o coração continue humano... mesmo quando
o mundo insisti em endurecê-lo.
~
Querido leitor, assine seus comentários!
Complicamos o simples, nos deixamos levar pelo mundano, boa reflexão!
ResponderExcluirParabéns!
Selma
Quanta verdade dita num texto tão leve. Quanta coisa tem ficado para trás! E a vida vai ficando tão séria!
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