"A civilização é um grande esforço para não mandar ninguém à m*rda", de Ana Maria Guerra Machado

Membro-fundador da Academia de Ciências e Letras de Sabará
Cadeira 8. Patrono: Benedito Machado Homem


A CIVILIZAÇÃO É UM GRANDE ESFORÇO
PARA NÃO MANDAR NINGUÉM À M*RDA


Existe uma coisa extraordinária sobre a humanidade que, por alguma razão, tratamos como absolutamente normal: ninguém é igual a ninguém.

Parece frase de caneca motivacional, eu sei. Mas pense seriamente nisso.

Cada pessoa chega à vida carregando uma combinação praticamente irrepetível de temperamento, educação, traumas, valores, religião, classe social, referências, hábitos, desejos, medos, preconceitos, manias, experiências e uma quantidade considerável de certezas sobre assuntos que jamais estudou.

E, mesmo assim, colocamos todas elas juntas.

Em elevadores.

Famílias.

Casamentos.

Empresas.

Grupos de WhatsApp.

E esperamos que dê certo.

É uma confiança na humanidade que chega a ser comovente.

Uma pessoa acha perfeitamente aceitável chegar quinze minutos atrasada.

Outra considera atraso uma falha moral.

Uma precisa conversar sobre o problema.

A outra precisa de silêncio.

Uma gosta de receber gente em casa.

A outra considera campainha tocando sem aviso, uma modalidade de invasão territorial.

Uma dorme com ventilador ligado.

A outra acorda com dor de garganta só de olhar para ele.

Uma acredita que dinheiro foi feito para proporcionar experiências.

A outra guarda até o sachê de ketchup porque “vai que precisa”.

E essas duas pessoas, contrariando todas as evidências científicas disponíveis, às vezes se casam.

É fascinante.

Talvez o maior mistério do casamento não seja o amor.

É a adaptação.

Porque amar alguém é uma ideia belíssima.

Dividir o banheiro com essa pessoa durante vinte e oito anos já pertence a outro nível da ciência.

O amor diz:

— Quero envelhecer ao seu lado.

A convivência pergunta:

— Mas você pretende deixar essa toalha molhada embolada, até quando?

É nesse pequeno intervalo entre a poesia e a toalha que nasceu a civilização.

Gostamos muito de falar sobre autenticidade.

“Seja você mesmo.”

“Não mude por ninguém.”

“Quem gostar de você, vai gostar exatamente como você é.”

São frases maravilhosas. Principalmente se você pretende ser ermitão.

Porque qualquer pessoa que tenha convivido mais de três dias com outro ser humano, sabe que ninguém consegue ser integralmente “ele mesmo” o tempo inteiro, sem acabar envolvido numa ocorrência policial.

A vida em sociedade exige edição.

Você pensa uma coisa.

Avalia.

Respira.

E diz outra.

Isso se chama educação.

Em casos mais avançados, casamento.

Não significa necessariamente falsidade.

Significa compreender uma coisa que nossa época, apaixonada pelo culto ao “eu”, às vezes parece esquecer: o outro também existe.

E essa é uma informação devastadora. Porque, se o outro existe, ele não está aqui apenas para assistir ao espetáculo da nossa autenticidade.

Ele também possui desejos.

Limites.

Manias.

Convicções.

E, para piorar, também acredita estar certo.

Foi uma falha grave no projeto.

A sociedade, então, inventou uma espécie de zona intermediária.

Chamamos de bom senso.

Senso comum.

Etiqueta.

Educação.

Civilidade.

Não importa muito o nome.

É um enorme acordo tácito, segundo o qual todos abriremos mão de pequenas parcelas de nossa espontaneidade, para não transformar o supermercado numa guerra civil.

Eu posso achar você um idiota.

Você pode achar que eu sou insuportável.

Mas, se nossos carrinhos se encontrarem no corredor do arroz, diremos:

— Desculpe-me.

— Imagina.

E seguiremos.

Isso é civilização.

Dois seres humanos que talvez jamais sobrevivessem juntos numa ilha deserta, conseguem disputar educadamente a última bandeja de peito de frango, porque existe entre eles uma convenção.

É bonito.

Artificial?

Claro.

Mas usar garfo também é.

E ninguém está propondo voltar a comer macarrão com as mãos em nome da autenticidade.

Com os amigos, a coisa fica ainda mais interessante.

Nossos amigos raramente são pessoas que pensam exatamente como nós.

Ainda bem.

Imagine passar vinte anos conversando com uma réplica intelectual de si mesmo.

Seria insuportável.

Além disso, para isso já existem as redes sociais.

Amizade verdadeira envolve um sofisticado sistema de concessões.

Você tolera aquela opinião absurda dele, porque ele tolera três suas.

Você ouve novamente a história que já ouviu dezessete vezes.

Ele finge que é a primeira.

Você sabe que aquela roupa ficou horrorosa.

Mas responde:

— Não é a que eu mais gosto em você.

Milhares de anos de evolução moral foram necessários para chegarmos a essa frase.

Porque existe a verdade.

E existe a manutenção da amizade.

Nem sempre as duas precisam comparecer à mesma reunião.

No casamento, entretanto, atingimos o doutorado.

Duas pessoas criadas por famílias diferentes decidem morar na mesma casa.

Só isso já deveria exigir acompanhamento da ONU.

Uma cresceu numa casa onde almoço de domingo era às onze e meia.

A outra, numa família em que onze e meia ainda estavam discutindo quem iria ao supermercado.

Uma aprendeu que visita merece mesa posta.

A outra aprendeu que visita íntima abre a geladeira.

Uma família fala alto.

A outra considera falar alto sinal de conflito.

Uma resolve problemas imediatamente.

A outra precisa de três dias, dois cafés e uma caminhada.

E então... essas duas criaturas dizem:

— Vamos construir uma vida juntos.

É de uma arrogância admirável.

E, surpreendentemente, muitas conseguem.

Não porque se tornam iguais.

Mas, porque inventam uma terceira cultura.

Nem a minha.

Nem a sua.

A nossa.

Talvez seja isso que uma relação longa realmente construa.

Um pequeno país. Com idioma próprio. Piadas que estrangeiros não entendem. Feriados particulares. Traumas históricos. Tratados de paz. Fronteiras. Costumes. E assuntos que, por razões diplomáticas, jamais devem ser mencionados depois das dez da noite.

Todo casal longevo possui uma Constituição não escrita.

Artigo primeiro:

“Não perguntar o que você quer comer, quando nenhuma das partes está disposta a ir para a cozinha.”

Artigo segundo:

“Determinados temas não serão discutidos dentro do carro.”

Artigo terceiro:

“Se ela disser ‘não é nada’ daquela maneira específica, definitivamente é alguma coisa. Insista.”

A jurisprudência vai sendo construída ao longo dos anos.

Mas há algo filosoficamente bonito nisso tudo.

A verdadeira experiência humana talvez aconteça justamente no atrito.

Eu encontro alguém que não sou eu.

Esse alguém resiste aos meus desejos.

Contradiz minhas certezas.

Interrompe minhas vontades.

Obriga-me a perceber que minha maneira de viver não é “a maneira normal”.

É apenas a minha maneira.

E isso dói um pouco, porque todos nós carregamos secretamente a suspeita de que somos a medida razoável do universo.

Eu não sou exagerada.

Os outros é que são frios.

Eu não sou desorganizada.

Sou espontânea.

Eu não sou controladora.

Só gosto das coisas corretamente feitas.

Eu não sou teimosa.

Apenas ainda não apareceu argumento suficiente para demonstrar que estou errada.

(Convenientemente, nunca aparece.)

Talvez a convivência seja justamente o processo pelo qual descobrimos que não somos o centro moral do cosmos.

E isso explica porque é tão difícil.

Conviver é negociar permanentemente a distância entre aquilo que eu gostaria de fazer e aquilo que posso fazer sem tornar a vida de todos ao redor insuportável.

É abrir mão.

É ceder.

É engolir algumas respostas brilhantes.

É pedir desculpas sem acrescentar “mas”. Essa última, inclusive, é uma das formas mais avançadas de desenvolvimento humano já registradas.

Pouquíssimos alcançam.

O curioso é que passamos a vida procurando pessoas “compatíveis”. Talvez elas nem existam.

Existem pessoas suficientemente interessadas umas nas outras, para administrar as incompatibilidades.

Isso vale para amigos.

Famílias.

Casamentos.

Colegas.

Sociedades inteiras.

Não permanecemos juntos porque somos iguais.

Permanecemos porque, em algum momento, decidimos que certas diferenças custam menos do que a ausência daquela pessoa.

E talvez seja isso o afeto adulto.

Não:

“Encontrei alguém que combina perfeitamente comigo.”

Sim:

“Encontrei alguém cujas esquisitices consigo suportar e que, por alguma razão incompreensível, também suporta as minhas.”

É menos cinematográfico. Mas muito mais impressionante. Porque amar aquilo que coincide conosco é relativamente fácil.

Difícil é olhar para outro ser humano, criado por outras pessoas, formado por outras experiências, cheio de hábitos incompreensíveis, convicções duvidosas e maneiras objetivamente erradas de guardar as meias na gaveta, e pensar:

“Ainda assim, quero você por perto.”

Talvez a civilização inteira seja isso.

Bilhões de pessoas profundamente diferentes, fazendo concessões diárias, para continuar juntas.

Às vezes por amor.

Às vezes por amizade.

Às vezes por educação.

E, em muitos casos, porque o elevador ainda não chegou.

No fundo, somos animais estranhíssimos tentando viver em grupo, sem perder completamente a individualidade, nem matar o vizinho.

E fazemos isso há milhares de anos com relativo sucesso.

Relativo.

Porque inventamos a filosofia, a legislação,  a democracia, o casamento, os direitos humanos e as regras de etiqueta.

Mas também inventamos o vizinho.

E, em Sabará, levamos essa invenção a níveis extraordinários.

Aqui, duas pessoas podem morar na mesma rua durante quarenta anos, discordar sobre política, religião, criação de filhos, estacionamento, cachorro solto e sobre quem exatamente avançou aqueles vinte centímetros na divisa do terreno em 1982.

Mas, se uma delas adoece, a outra aparece no portão com uma broa de fubá enrolada no pano de prato:

— Fiquei sabendo.

Claro que ficou. É Sabará. Aqui, a informação chega antes da ambulância.

E talvez esteja justamente aí a prova definitiva de que a civilização deu certo: não precisamos gostar uns dos outros para aparecer com uma broa de fubá, quando alguém adoece.

Podemos voltar a não nos falar amanhã.

Mas hoje tem broa.

E isso, meus amigos, talvez seja uma forma de amor que a filosofia ainda não conseguiu explicar.


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Foto: Frederico Moreira


Comentários

  1. mirteschagas@gmail.com9 de setembro de 2026 às 09:32

    Delicia de texto! Me identifiquei! Vou ler muitas vezes e devagar porque é bom demais! Que maravilha ler , sabendo de onde veio, conhecendo... O texto provoca uma reflexão e ninguém termina a leitura sendo o mesmo leitor de antes ...👏✨✨

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  2. Ahhh, que delícia!!! E é tão, tão!, a sua cara!! Tão real, tão gostoso de ler!! Parabéns, minha querida amiga! Amei!! Beijos e viva as diferenças e as concessões!! Amo-te! Cacau

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  3. Que maravilha de texto! Me identifiquei com diversos parágrafos, cujos questionamentos nos faz pensar sobre nós mesmos e os outros que convivemos. Parabéns! Adorei! ❤️👏👏👏

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  4. Amore, a filosofia não conseguiu explicar, mas você conseguiu atingir em cheio as contradições eternas de todos nós. Reflexivo, mas põe sorrisos deliciosos e imediatos no rosto que enruga a testa pra pensar nessas questões. Amei cada palavra como amo você.
    Abraçaço, e bora compartilhar broas...(rsrs)
    Selma

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  5. Texto que diz tudo sobre como viver e como conviver. Ele não te ensina mas te faz refletir. E a humanidade caminha assim e conseguimos conviver com todos os senões. Parabéns a autora. Colocação mais que perfeita sobre o existir em comunidade

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  6. Divertidamente sincero como você! Adorei o texto! Uma bela reflexão sobre o convívio social.
    Parabéns Ana Maria!
    Abraços, Carla Tavares.

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  7. Que texto incrível!
    Em Sabará, muitas coisas tomam proporções inimagináveis.
    Afinal, aqui tem história.
    Um abraço!
    Igor

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  8. Excelente! 👏👏👏👏

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