"Homenagem à minha mãe", de Marcelino Guerra
Membro-fundador da Academia de Ciências e Letras de Sabará
Cadeira 23. Patrono: Dr. Mário de Lima Guerra
HOMENAGEM À MINHA MÃE
Quer seja o vento,
quer seja a água correndo,
ou o gorjear das aves —
todos saudam Marli.
Minha querida mãe,
nascida na Serra do Cipó,
berço da mineiridade.
Trouxe da terra de onde veio
a força das rochas antigas
e um sorriso constante,
amplo como os horizontes,
vasto como o céu infinito
daquele lugar verdejante.
Das sempre-vivas, herdou a ternura,
a delicadeza e a doçura.
Sua vida refletia luz.
Um amanhecer suave e promissor.
Encorajava, acreditava e seguia,
como um belo poema em fluxo.
Desde cedo, aprendeu a cuidar.
Em uma família de dez irmãos,
cresceu entre pais e avós,
fazendeiros mineiros sábios,
de quem herdou conselhos, verdades
e a sabedoria silenciosa da vida.
Professora Marli se tornou —
e a tantos ensinou.
Tantas vidas tocou,
tantas lições deixou.
Amou profundamente a família.
Honrou, dedicou, ofertou.
No paisagismo, encontrou outra forma de amar.
Fez florescer.
Coloriu espaços, encantou pessoas,
deixando sua marca viva em cada muda,
em tantos jardins.
Aos setenta, numa curva da vida,
a estrada se fez árdua.
Mas ali, do campo rupestre de onde vinha,
sua resistência extrema floresceu.
E a todos ainda mais surpreendia:
sua serenidade em nada se abalou.
Nem a dor.
Nem o cansaço.
Por nada, absolutamente nada, reclamou.
E assim, oito anos se passaram
como se o desafio não a tivesse vencido —
porque foi ela quem o enfrentou.
Mesmo quando o corpo já não respondia,
o sorriso não a abandonou.
“Está tudo bem?”
“Está.”
Como quem contempla uma paisagem:
sem pressa, sem queixa — e com coragem.
Transformou o que seria fim
em mais oito anos de vida —
uma eternidade viva,
onde o impossível, diante da sua fé e luz, se curvou.
Seu sorriso nunca deixou de ser amanhecer.
Sua presença, mesmo em silêncio, acolhia.
Até que partiu.
Como água fluindo serena,
seguiu seu caminho com leveza,
atravessando o horizonte,
em paz, inteira, luminosa,
ao encontro de Deus.
Cuidou.
Amou.
Construiu.
Na família.
Na terra.
Nas flores.
Deixou raízes profundas
e uma beleza espalhada por onde passou.
Por isso, para sempre, o vento, a água e as aves
hão de anunciar
o amor, a ternura e a coragem —
a amiga, a mãe, a conselheira,
ou, simplesmente, Marli.
~
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Ah! Que poema lindo,Marcelino!
ResponderExcluirHomenagem póstuma tocante e marcante!!!
Parabéns, amigo!
Mônica Maria
Que texto lindo! Parabéns pela delicadeza ao lembrar e compartilhar seu olhar sobre sua mãe.
ResponderExcluirDarsoni
Lindo, emocionante, profundo, digno do filho e da mãe. Luiz Alves
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