"Solidão", de Darsoni de Oliveira Caligiorne

Membro-fundador da Academia de Ciências e Letras de Sabará
Cadeira 29. Patrono: Alzira Umbelino


SOLIDÃO


A solidão... Muitas vezes usamos esta palavra sem viver o que realmente ela significa e como ela nos afeta.

Estava sentada em um sofá antigo, coberto com um xale azul. Mas este xale não era nenhum estilo, e sim uma maneira de esconder os rombos causados pelo desgaste do tempo. Todos os dias, ela prometia que, no próximo pagamento, daria entrada em um novo móvel — o que nunca acontecia.

Como era de costume, após o jantar, sentava-se na sala de estar para assistir a algum filme ou mesmo novela, esperando o sono chegar.

Sempre atenta às imagens, respondia às questões que os personagens faziam, como se estes estivessem falando com ela.

Mas, neste dia, foi diferente. Resolveu assistir a um filme de ação. Durante o filme, muitas cenas de luta, tiroteio e momentos de tirar o fôlego. Foi quando começou a se contorcer e virar o olhar para o lado.

De repente, levantou-se e foi até a porta para ir embora. Não compreendia que era apenas uma imagem da televisão. Acreditava que as filmagens eram algo real e ficou com medo dos personagens.

Naquele momento, sua reação foi de pavor. Queria escapar daquele lugar tão violento.

Foi quando as lágrimas escorreram por seu rosto, e pedidos de socorro começaram a deixá-la em um grande momento de solidão.

O pavor tomou conta de seu olhar, já tão distante...

Zélia entendeu que era preciso fazer algo. Desligou rapidamente o aparelho de televisão e foi narrando:

— Acabou! Estou desligando. Não vou ligar mais. Vamos para a cozinha.

Sentaram-se à mesa da copa, uma de frente para a outra.

O que dizer? O que fazer?

Naquele momento, o silêncio incômodo paralisou ambas. Zélia observou aquela que sempre soube de todas as respostas, que sabia acolher, aconselhar, perceber todas as angústias... ali, na sua frente, tão vulnerável, desprotegida e à espera de uma atitude de sua parte.

Nesse silêncio tenso, sentadas à mesa, Zélia precisava agir com profunda gentileza, calma e reconexão com a realidade imediata.

— Está tudo bem! O filme acabou, e eu desliguei a TV!

Ainda temerosa, ela começou a pedir para fechar as janelas, as portas... E, na tentativa de acalmá-la, Zélia lembrou que ela adorava tomar um lanche antes de dormir.

Imediatamente foi se levantando e dizendo:

— Comprei um bolo delicioso e você ainda não provou. Sabor de laranja com maracujá.

Levantou-se rapidamente, colocou a água no fogo para ferver e fazer um café.

Enquanto Zélia preparava o café, temperando-o com água quente e açúcar — pois ela não gostava de café sem açúcar e muito menos de adoçante —, ela resolveu ajudar, retirando o bolo do armário e levando-o para a mesa. Escolheu os pratinhos, os talheres, as xícaras e levou separadamente cada utensílio. Foram várias idas e vindas, do armário e da prateleira até a mesa do café.

O cheiro do café se espalhou pela cozinha. Enquanto Zélia colocava o café no bule, viu-a sentada à mesa, cortando com cuidado uma fatia de bolo e colocando no prato. O rosto já não carregava o pavor de antes.

A casa voltava a ser apenas a casa. E a noite, novamente, seguia tranquila.





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