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VI ANTOLOGIA DA ACADEMIA DE CIÊNCIAS E LETRAS DE SABARÁ 








Contendo todos os trabalhos publicados em nosso blog ao longo de 2025.


POEMAS  -  COMPOSIÇÕES MUSICAIS

ENSAIOS  -  ARTIGOS  CIENTÍFICOS, ACADÊMICOS e LITERÁRIOS


Trata-se das publicações feitas durante o ano 2025 no blog da ACLS, onde você pode encontrar não só os presentes trabalhos como também as publicações anteriores dos membros da instituição — entre eles acadêmicos, historiadores, escritores, musicistas, cientistas, professores; todos eles figuras de relevância no atual cenário cultural e educacional da cidade histórica de Sabará!


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LEIA O PREFÁCIO DO PRESIDENTE DA ACLS, BERNARDO LOPES:


PREFÁCIO


O futuro é uma ficção; ao menos enquanto não chega.

É isso que nos diz a escritora Siri Hustvedt. E é assim que abrimos esta VI Antologia da Academia de Ciências e Letras de Sabará: com uma cena teatral que se debruça sobre uma pergunta tão antiga quanto urgente: qual é o futuro da literatura? Na era da inteligência artificial, que nos traz tantos fáceis retornos, fica ainda mais arriscado responder.

O que, é claro, não nos impede de tentar. Há quem já esteja fazendo isso de forma exemplar: o autor nacional Sérgio Rodrigues publicou em julho deste ano o livro Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robô, um dos mais honestos empenhos em separar o joio do trigo numa época em que IAs como o ChatGPT e o Gemini podem fazer por nós vários dos trabalhos que estamos com preguiça, sem tempo ou sem força criativa pulsante para fazer.

Não que Sérgio se valha de didatismos: tampouco ele tenta nos dizer o que é certo ou errado. Porque, afinal, o que seria certo ou errado? Mas de fato, quando se trata do ato de criar, sabemos que algo pode dar certo ou dar errado; com a sinceridade que por vezes nos falta nos meios midiáticos e acadêmicos (todo mundo tem que parecer sábio demais, certeiro demais, confiante demais), o autor mineiro radicado no Rio faz o que algumas mentes brilhantes como Susan Sontag já haviam feito e que é raro alívio: dar voz ao pensamento intelectual sem deixar de admitir suas dúvidas, seu ar tentativo, sua imensa abertura para as variáveis e, sim, suas lacunas. Não há verdades absolutas; apenas constatações, que se unem, se amalgamam, se apartam.

Caro leitor, como a inteligência artificial tem impactado, positivamente, seu trabalho? E como ela tem impactado, positivamente, e negativamente, sua escrita?

“O robô me deu um norte, um foco”, diz Sérgio no prefácio de seu livro. “Como observa a pesquisadora Lucia Santaella, a IA ‘está nos ensinando que a mente humana é muito mais rica, e muito mais sutil, do que se supunha’ — e eu acrescento”, continua o autor, “que [ela] pode nos ensinar também a concentrar esforços naquilo que, com nossos cérebros de carbono sujeitos a dores de cabeça, falhas de memória e todo tipo de distração, só nós sabemos fazer.” (Grifo meu.) Ou seja, a IA pode nos ajudar na coleta ou organização de recursos, mas o trabalho duro, de tornar aquilo um produto escrito único, ainda é nosso.

O que não é pouca coisa, nos lembra Sérgio: “No caso que nos interessa de perto aqui, arte verdadeira com palavras é algo que a máquina definitivamente não faz nem tem perspectivas realistas de fazer tão cedo — ou mesmo, o que talvez seja mais provável, jamais.”

O escritor nos alerta: “Em vez de bater no peito e cantar vitória como primatas peludos, atirando para o alto exemplares de romances até que um deles vire uma nave espacial” — interrompo aqui para lembrar que, em julho deste ano, uma editora brasileira cancelou uma premiação literária após identificar o uso de inteligência artificial em um sem-número de trabalhos inscritos — “parece mais inteligente tomar as limitações do robô escritor como pistas de caminhos para nos aprofundarmos naquilo que, nesse trabalho [da escrita], é intransferivelmente humano.”

Sem querer cair na pieguice, mas já caindo, pois o óbvio, ainda que seja óbvio, precisa ser dito, para “soar humano” de verdade, o texto tem que ter algo que os robôs podem simular, mas não têm: sentimento. Para quem escreve — e não falo aqui de papelada burocrática, versões e mais versões de contratos, ou daquela legendinha de post de Instagram que pode apenas seguir uma fórmula e já está pronta; falo de arte —, hora ou outra fica claro que “o caroço literário irredutível sob a polpa da linguagem automatizada”, como o próprio Sérgio defende, é nosso.

 

 

Mas vamos ao conteúdo da nossa Antologia.

O texto teatral de abertura, “O Futuro da Literatura”, encenado no palco do Teatro Municipal de Sabará durante a primeira edição do Sarau de Sabará deste ano, nasce de uma tradução de um ensaio de Hustvedt, passa pela adaptação cênica, e se realiza no encontro com o público (que foi mágico). Seguem-se a ele os textos publicados ao longo de 2025 em nosso blog, que confirmam algo que temos aprendido ano após ano: a palavra não vive isolada. Ela atravessa o palco, a rua, a escola, a cozinha, o lugar de espiritualidade, o livro, a tela, o coreto da nossa praça. A palavra vive do encontro: e se transforma nele.

Encontraremos aqui, também, caro leitor, o humor e a oralidade dos causos mineiros, como em “A fonte da juventude”, do nosso tão único Luiz Alves, e na saborosa e épica narrativa do igualmente único Silas da Fonseca, que transforma uma “marrecada” improvável num verdadeiro mito de origem do ora-pro-nóbis e de uma das festas mais queridas do calendário sabarense.

Tem também poesia afirmando identidade, intensidade e autoconsciência, como em “Avesso”, de Selma Cândido Rossi, e em “O palco em forma de página”, de Marla Mariane de Paula Branco, no qual corpo, escrita e cena se confundem.

Nossa Sabará aparece, reiteradamente, não apenas como cenário, mas como expressão da linguagem, de vários tipos dela: está nos versos de Flávia Márcia do Carmo, celebrando os 314 anos da cidade; na prosa poética de Ana Paula Cruz, que nos devolve uma Sabará sensorial, barroca e afetiva; no cordel de Frederico Luiz Moreira, registrando o gesto coletivo de criação dos tapetes de serragem da nossa tradicional festa de Corpus Christi; e no texto de Rodrigo Cabral, que nos conduz pela história, pela fé e pela resistência dos congados e do Reinado do Rosário, reconhecidos, neste ano, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

A reflexão também tem lugar central nesta coletânea. Lucas Duarte Neves nos convida a uma escuta atenta da música de concerto dos séculos XX e XXI, propondo novos modos de ouvir o mundo contemporâneo e nos dando uma verdadeira aula. Graziela Armelao Jácome Rosa nos conduz por um ensaio filosófico que não pretende encerrar a pergunta “o que é arte?”, mas mantê-la viva, pulsante, aberta ao sentir e ao tecer. E há ainda o gesto generoso e afetuoso de José Eustáquio Evangelista, que escreve sobre mim em linda homenagem, pautada em nossas memórias compartilhadas: Taco, como gostamos de chamá-lo, foi meu professor durante o ensino médio; hoje, trilhamos lado a lado a trajetória de nossa literatura e da nossa Academia.

 

 

Este foi, querido leitor, para a ACLS, um ano especialmente intenso. Promovemos lançamentos de livros de poesia, romance, ensaio, memória, planejamento urbano, história, educação e artes visuais. Ao todo, apresentamos ao público oito obras:

1.          Colorindo Minas Gerais, de Geter Von Randow, livro de colorir no estilo bobbie goods, com temática especialmente mineira: são desenhos de monumentos, paisagens e pontos turísticos de Sabará, Ouro Preto, Mariana e outras cidades de nosso estado, para crianças de todas as idades colorirem e aprenderem mais, com textos explicativos bilíngues, em português e inglês;

2.     Igreja do Carmo de Sabará: as escrituras contábeis revelam sua história, de Oldair Ferreira Motta, compilação de importantes documentos da Irmandade do Carmo de Sabará — e contendo detalhe nunca antes publicado sobre a metodologia de trabalho do mestre Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho;

3.     Análise Espacial do Município de Sabará/MG, de Jedean Moisés do Carmo, com a proposta de criação das Unidades de Planejamento na nossa cidade;

4.     Nietzsche na Montanha, de Djalma Santiago, romance do multiartista que também inaugurou a Livraria Sabarense e a Kaquende Editora, projetos que merecem ser celebrados por sua proposta acessível e comprometida com autores de Sabará ou de grande atuação aqui;

5.     De nossos membros-fundadores, tivemos: Devaneios Poéticos, de José Eustáquio Evangelista, coletânea de poemas em que os sentimentos transcendem as palavras;

6.     Pensatas Afetivas, de Mirtes Chagas e Souza, coletânea de crônicas e reflexões, em que pequenas histórias do cotidiano ganham contornos de poesia, humanidade e sabedoria;

7.     Como desenhar um cubo de Necker, de minha autoria, composto por textos majoritariamente inéditos de diferentes fases de minha trajetória literária, reunindo lembranças, contos ficcionais e reflexões sobre o mundo;

8.     E, encerrando o ano, Mulheres de Poder: vozes que me tecem, de Ana Paula Cruz, em que, através de uma prosa memorialística, a autora tece referências e lições das mulheres que passaram em sua vida e deixaram sua marca.

Agradecemos ao Clube Cravo Vermelho pela parceria fundamental na promoção desses lançamentos.

 

 

Em dezembro, realizamos mais uma Defesa de Patrono aberta ao público, na Borrachalioteca. Flávia Márcia do Carmo apresentou a trajetória de Waldemar Gomes Batista, respeitável figura da cultura sabarense que dá nome à sua cadeira.

Também demos passos importantes no fortalecimento institucional da Academia: passamos a integrar a Associação de Academias de Letras de Minas Gerais (ASALEMG), abrindo novas possibilidades de intercâmbio, diálogo e atuação.

E, por falar em intercâmbio, tivemos a alegria de receber, em setembro, a Academia Escadense de Letras (AELE), de Pernambuco, parceira de longa data desde as lives realizadas durante a pandemia. Foram dias de troca, com cerimônia solene, apresentações artísticas, debates e passeios culturais por Sabará, Ouro Preto e Belo Horizonte. Fica aqui nosso sincero agradecimento à AELE por essa experiência tão rica e afetiva; são verdadeiros amigos.

Nosso Grupo de Leitura Machado de Assis seguiu sendo um dos pilares formativos da Academia de Ciências e Letras de Sabará. Em 2025, chegamos à quarta e à quinta edições do nosso projeto, que tem como missão a leitura, coletiva e gratuita, de todos os romances do escritor brasileiro. No primeiro semestre, lemos Iaiá Garcia (1878); no segundo, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), sendo esta última a obra que marca a grande virada literária do Bruxo do Cosme Velho. Agradecemos ao D’Ouro Center, ao Colégio Villa Real e à Borrachalioteca pelo apoio e pelos espaços que tornaram possível essa leitura coletiva, em formato presencial, que transforma pessoas. Anunciamos, desde já, que em março de 2026 iniciaremos um novo ciclo de leitura aberta, com o romance Quincas Borba (1892). A Academia se orgulha desse trabalho e de seus lindos resultados.

No campo audiovisual, celebramos em setembro o lançamento do curta-metragem Academia de Ciências e Letras de Sabará: fomentando o conhecimento e a cultura local, dirigido por Wanessa Gomes e roteirizado e produzido por nosso membro-fundador Frederico Luiz Moreira. O filme, viabilizado pela Lei Paulo Gustavo por meio da Secretaria de Cultura de Sabará, apresenta de forma sensível e cuidadosa o início da nossa trajetória, nossos propósitos e o espírito coletivo que sustenta a Academia desde sua fundação.

Ainda que não diretamente vinculados à ACLS, dois outros lançamentos dialogaram profundamente com a proposta de nosso trabalho. Em julho, estreou o documentário Papo na Panela, com direção de Luccas Màia, direção de fotografia de Jonathan Fidelis, produção de Diddìo Gonçalves e roteiro meu; o curta-metragem trouxe ao centro do debate a trajetória de três mulheres negras sabarenses e sua relação, especial e pessoal, com a culinária — entrelaçada com relatos de outras mulheres da nossa cidade sobre memória, música, espiritualidade e carnaval. Já em setembro, foi a vez do curta-metragem Debutante, adaptação do meu livro homônimo, com roteiro meu e direção de Breno Santos (3%, Dom – 2ª Temporada), que ganhou a tela do nosso amigo Cine Bandeirantes com grande elenco do teatro e da televisão. Ambos os projetos também foram realizados com recursos da Lei Paulo Gustavo.

Encerramos o ano com atividades que sintetizam bem o espírito da Academia: em novembro, possibilitamos, junto ao Museu do Ouro, o curso gratuito O Acervo de Obras Raras do Instituto Cultural Amilcar Martins: critérios para a formação de coleções especiais, com o professor Amilcar Martins Filho, na Escola Estadual Paula Rocha, a quem agradecemos pelo espaço e pelo acolhimento.

Vivemos também, na Casa Amarela Centro Cultural, um encontro memorável com o escritor Paulo Stucchi, duas vezes finalista do Prêmio Jabuti, em um debate profundo e necessário sobre Luzia Pinta, mulher negra escravizada que viveu e fez história em Sabará no século XVIII. A conversa contou com a participação de Massuelen Cristina (diretora do curta-metragem Curar Tempo – Sarava Luzia Pinta e responsável pela galeria de arte Luzia Pinta, da Casa Amarela), Argemiro Afonso Ramos (autor do livro Luzia Pinta: A mulher que enfrentou a inquisição no Brasil, campeão de vendas da Editora Caravana e que em breve será traduzido para o espanhol e lançado na Argentina e no Chile) e do historiador José Arcanjo Bouzas, num diálogo que cruzou literatura, história, cinema, memória e justiça histórica. Agradecemos à Casa Amarela pela parceria neste evento maravilhoso.

Em 2026, nossa Academia promoverá em Sabará os lançamentos do novo livro de Paulo, A Dança da Serpente, que tem Luzia Pinta como personagem, e do romance já celebrado de Argemiro Ramos. Fique atento às datas em nosso Instagram: @academiacelsabara.

 

 

Como vemos, querido leitor, lançamos esta VI Antologia em meio à certeza de movimento ao longo de 2025 — e em meio a um pouco de descanso, durante os feriados festivos de fim de ano. Encontraremos aqui vestígios vivos de meses atravessados por conexões, leituras, debates e a sempre importante busca pelo conhecimento, entendimento e reflexão.

Se a literatura, a música, as artes no geral e a ciência são formas de enxergar o passado e o presente e de imaginar futuros possíveis, esta Antologia é, para nós, uma prova concreta de que esses futuros não se constroem sozinhos. Eles exigem trabalho, escuta, persistência e afeto. Exigem reunião e crescimento em torno da palavra, dos sons, da pesquisa e das ações.

Fique conosco em 2026!

Boa leitura. E até os próximos capítulos!

 

Presidente da Academia de Ciências e Letras de Sabará

 Dezembro, 2025.


Caro leitor, excelente leitura!

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